sábado, 7 de novembro de 2026
Cidades

Mangueira plantada por casal em Brasília virou local de memória após as mortes

Regina Célia e Antonio Pinheiro Neto conversaram com os filhos sobre tratamentos, despedidas e destino das cinzas; a história se relaciona à Lei nº 15.378/2026, que prevê diretivas antecipadas de vontade.
Mangueira plantada por casal em Brasília virou local de memória após as mortes
Foto distribuída pela Agência Brasil Direitos Humanos

Uma mangueira plantada por Antonio Pinheiro Neto próximo à residência da família, em Brasília, tornou-se o local onde foram depositadas as cinzas dele e da esposa, Regina Célia Pinheiro. A escolha foi resultado de conversas que o casal mantinha com os filhos sobre tratamentos, despedidas e as decisões que deveriam ser respeitadas caso um deles não pudesse mais manifestar a própria vontade.

Regina morreu aos 77 anos, em setembro de 2021, por causa de um problema cardíaco. O velório reuniu mais de 160 pessoas e seguiu preferências que ela havia expressado em vida. Houve música, cerveja e a presença de familiares e amigos. Depois, Antonio colocou as cinzas da esposa junto à mangueira.

Dois anos mais tarde, Antonio morreu de câncer, aos 80 anos. A despedida também foi organizada de acordo com seus desejos, com bebidas mais quentes e refrigerante. As cinzas dele foram depositadas no mesmo local, ao lado das da mulher, com quem havia sido casado por mais de 50 anos.

Conversas antes do adoecimento

Segundo a psicóloga Márcia Pinheiro, filha do casal, os pais falavam sobre a possibilidade de não prolongar artificialmente a vida quando não houvesse chance de recuperação. Os filhos também discutiam quais procedimentos deveriam ser recusados em uma situação desse tipo.

“Nós não persistimos porque sempre escutamos muito a vontade deles. A gente sempre conversava sobre isso”, afirmou Márcia. No caso da mãe, a família decidiu interromper o tratamento de hemodiálise quando não havia mais possibilidade de recuperação.

“Conversávamos sobre esses temas não no momento do leito de morte. A gente conversava como uma convicção de vida”, disse a psicóloga. Para ela, a participação dos familiares nas decisões e nas despedidas ajudou a manter a união da família durante o luto.

Diretivas antecipadas

A experiência da família se relaciona à Lei nº 15.378/2026, apresentada como o Estatuto dos Direitos dos Pacientes no Brasil. A norma estabelece direitos como autonomia, consentimento informado, acesso ao prontuário e cuidados paliativos livres de dor. Também prevê a possibilidade de escolher o local da morte.

As diretivas antecipadas de vontade são definidas na legislação como uma declaração escrita sobre os cuidados, procedimentos e tratamentos que o paciente aceita ou recusa. Essas orientações devem ser respeitadas quando a pessoa não puder expressar livre e autonomamente a própria vontade.

A pesquisadora e assistente social Clisciene Magalhães, autora do livro Antes de morrer: diretivas antecipadas de vontade, afirma que o tema ainda é cercado de tabu e desinformação. Ela defende que as pessoas possam registrar suas preferências antes de enfrentar uma doença grave.

“É preciso sensibilizar a sociedade para esse tema. Ninguém sabe a hora que vai adoecer. É importante que todos nós possamos nos manifestar sobre como devemos ser tratados para um momento de doença terminal e incurável”, declarou.

Clisciene também propõe que as diretivas sejam catalogadas e integradas ao sistema eletrônico do Sistema Único de Saúde. Na avaliação dela, um banco de informações evitaria que as escolhas fossem discutidas apenas quando o paciente já estivesse em estado terminal. A pesquisadora afirma que qualquer papel pode servir como registro da vontade.

Cuidados e despedida

Além dos tratamentos médicos, a assistente social considera que a pessoa deve poder se manifestar sobre quem deseja ter por perto, o ambiente de cuidado e a própria despedida. O livro de Clisciene aborda ainda o codicilo, documento particular de última vontade, mais simples e menos solene que um testamento tradicional, usado para tratar de questões posteriores à morte.

Na família de Regina e Antonio, crianças e adultos participaram das conversas e das despedidas. Depois das mortes, os filhos passaram a visitar a mangueira para lembrar dos pais, conversar, rezar e compartilhar momentos de saudade. Em uma dessas ocasiões, leram uma carta escrita por Antonio sobre a permanência de sua memória nos descendentes e na árvore que havia plantado.

Fonte: Agência Brasil Direitos Humanos.

Foto distribuída pela Agência Brasil Direitos Humanos