Uma mangueira plantada por Antonio Pinheiro Neto próximo à residência da família, em Brasília, tornou-se o local onde foram depositadas as cinzas dele e da esposa, Regina Célia Pinheiro. A escolha foi resultado de conversas que o casal mantinha com os filhos sobre tratamentos, despedidas e as decisões que deveriam ser respeitadas caso um deles não pudesse mais manifestar a própria vontade.
Regina morreu aos 77 anos, em setembro de 2021, por causa de um problema cardíaco. O velório reuniu mais de 160 pessoas e seguiu preferências que ela havia expressado em vida. Houve música, cerveja e a presença de familiares e amigos. Depois, Antonio colocou as cinzas da esposa junto à mangueira.
Dois anos mais tarde, Antonio morreu de câncer, aos 80 anos. A despedida também foi organizada de acordo com seus desejos, com bebidas mais quentes e refrigerante. As cinzas dele foram depositadas no mesmo local, ao lado das da mulher, com quem havia sido casado por mais de 50 anos.
Conversas antes do adoecimento
Segundo a psicóloga Márcia Pinheiro, filha do casal, os pais falavam sobre a possibilidade de não prolongar artificialmente a vida quando não houvesse chance de recuperação. Os filhos também discutiam quais procedimentos deveriam ser recusados em uma situação desse tipo.
“Nós não persistimos porque sempre escutamos muito a vontade deles. A gente sempre conversava sobre isso”, afirmou Márcia. No caso da mãe, a família decidiu interromper o tratamento de hemodiálise quando não havia mais possibilidade de recuperação.
“Conversávamos sobre esses temas não no momento do leito de morte. A gente conversava como uma convicção de vida”, disse a psicóloga. Para ela, a participação dos familiares nas decisões e nas despedidas ajudou a manter a união da família durante o luto.
Diretivas antecipadas
A experiência da família se relaciona à Lei nº 15.378/2026, apresentada como o Estatuto dos Direitos dos Pacientes no Brasil. A norma estabelece direitos como autonomia, consentimento informado, acesso ao prontuário e cuidados paliativos livres de dor. Também prevê a possibilidade de escolher o local da morte.
As diretivas antecipadas de vontade são definidas na legislação como uma declaração escrita sobre os cuidados, procedimentos e tratamentos que o paciente aceita ou recusa. Essas orientações devem ser respeitadas quando a pessoa não puder expressar livre e autonomamente a própria vontade.
A pesquisadora e assistente social Clisciene Magalhães, autora do livro Antes de morrer: diretivas antecipadas de vontade, afirma que o tema ainda é cercado de tabu e desinformação. Ela defende que as pessoas possam registrar suas preferências antes de enfrentar uma doença grave.
“É preciso sensibilizar a sociedade para esse tema. Ninguém sabe a hora que vai adoecer. É importante que todos nós possamos nos manifestar sobre como devemos ser tratados para um momento de doença terminal e incurável”, declarou.
Clisciene também propõe que as diretivas sejam catalogadas e integradas ao sistema eletrônico do Sistema Único de Saúde. Na avaliação dela, um banco de informações evitaria que as escolhas fossem discutidas apenas quando o paciente já estivesse em estado terminal. A pesquisadora afirma que qualquer papel pode servir como registro da vontade.
Cuidados e despedida
Além dos tratamentos médicos, a assistente social considera que a pessoa deve poder se manifestar sobre quem deseja ter por perto, o ambiente de cuidado e a própria despedida. O livro de Clisciene aborda ainda o codicilo, documento particular de última vontade, mais simples e menos solene que um testamento tradicional, usado para tratar de questões posteriores à morte.
Na família de Regina e Antonio, crianças e adultos participaram das conversas e das despedidas. Depois das mortes, os filhos passaram a visitar a mangueira para lembrar dos pais, conversar, rezar e compartilhar momentos de saudade. Em uma dessas ocasiões, leram uma carta escrita por Antonio sobre a permanência de sua memória nos descendentes e na árvore que havia plantado.
Fonte: Agência Brasil Direitos Humanos.
Foto distribuída pela Agência Brasil Direitos Humanos


